Mapa
Toquei-te com olhos de gárgula:
tu, aí, com os olhos de dentro e dedos cardinais.
Sei pelo teu perfume o que é este e oeste,
sul e norte; eu vou sempre a sul, tu sempre a norte.
És o centro da forma que te procura,
com os braços caídos em torno.
Uma tarde, reconheceste-te: viste a pele de baixo,
enrugada do trilho, o limiar de pedra, a fronteira do tempo.
Cada relance exercia para dentro
a minha voz, até às pupilas de vidro negro
onde ainda enches um último copo de vinho.
Gosto de te adivinhar o gosto quando te estendes
à gema do dia, de tocar no teu corpo de ruína
como quem se embala na matriz das coisas.
É no espelho que te procuro.
Tenho o desejo de te vestir,
de percorrer com as mãos a dureza da tua face,
a erosão dos teus seios sobre um mar
que se abate contra a língua.
Olho-te e vejo-me:
difundido em todos os cantos da tua casa.
(Translated- by Tomás Gorjão)
Map
I touched you with gargoyle eyes:
you, there, with inner eyes and cardinal fingers.
Your perfume steers me east and west,
South and north; I always head south, you always north.
You are the centre of this searching shape,
with arms lingering on the side.
One afternoon, you were recognized: the underlying skin
rugged by treading, the stone threshold, the frontier of time.
Each glance seemed to push my voice
inside, to the black glass pupils
where you still fill a last cup of wine.
I enjoy guessing your taste as you spread
into the yolk of a day, touching your ruinous body
like someone who lulls in the womb of all things.
It's in the mirror that I seek you.
I long to dress you,
to run my hands through your rough face,
your eroded breasts over a sea
crashing down on my tongue.
I see myself in you:
scattered in every corner of your house.